31 de agosto de 2007

A pianista


Uma bonita jovem, trajando um leve vestido florido, observa sorridente o movimento do lado de fora de sua casa, através da janela da sala. Com as cortinas entreabertas, o sol da bela tarde de domingo invade toda a casa, juntamente com o som das crianças brincando lá fora, o canto dos passarinhos, e o barulho das folhas das árvores no quintal.

A garota senta-se diante de seu piano, e inicia as primeiras notas da Gimnopédia No. 1 (ouça ) de Erik Satie. Ela toca lindamente, e o som da melodia impecável preenche a sala. Pode-se ouvir um tom levemente desafinado, apenas na última nota da canção. A jovem esboça um discreto sorriso e, então, recomeça a tocar, desde o princípio.

Logo ela se distrai e erra novamente, apenas na última nota, no mesmo ponto da música. Mais uma vez a moça sorri, deixando escapar um pequeno riso. Ela fecha os olhos, inspira profundamente, solta o ar devagar, e recomeça a tocar seu piano, a partir do início da canção.

A melodia segue perfeita, até a última nota, quando o erro se repete mais uma vez e ela toca uma única nota desafinada. A garota, então, se levanta e caminha até a janela da sala, de onde pode ver as crianças brincando alegremente, os cães da vizinhança latindo ao longe, e os pássaros cantando vivamente, pousados sobre os galhos das árvores.

Ela sorri, dá um suspiro, e se curva para abrir um antigo baú que fica abaixo da janela. De dentro dele, ela retira uma pesada metralhadora automática.

A garota fecha os olhos, aponta a arma para o lado de fora, e começa a atirar descontroladamente, para todos os lados, gargalhando alto. Aos poucos, os gritos de horror do lado de fora vão perdendo a intensidade, até que as balas finalmente acabam. Ofegante, ainda rindo, ela observa através da janela.

Não se ouve mais nenhum tipo de barulho. Nenhuma criança, nenhum cachorro, nenhum pássaro. A jovem recoloca lentamente a metralhadora no baú, fecha, e senta-se calmamente diante do piano. Inicia a mesma melodia, novamente. Desta vez, ela toca sem errar uma só nota, até o final da canção.

Reprisado do Claquette.

13 comentários:

pai disse...

Trágico...
Bonito mas trágico. O texto ficou batucando em minha mente e pesando em meu final de tarde.
Triste.
Gosto mais de alegrias para todo mundo e para todas as vidas.
Mas muito bonito pelo supreendente desfecho.
Parabéns, como sempre.

disse...

Uia!
Inusitado!
Quem diria que uma pacata pianista mataria as crianças e os bichinhos em prol do sossego para obter a nota perfeita!
Mas, confesso: tem crianças que me tiram do sério!

Rodrigo(Bodas) disse...

Mas e as folhas, as arvores?
O Vento?!??!

Mas curti pacas!
Pacas mesmo! Bem legal!!!

Claudia Lyra disse...

Lembro dessa história no Claquette! Ai, que vontade de ter uma metralhadora também... hauhauahuahau

marilia disse...

trotta, acabei de te conhecer.
Belo texto. tragico, e fulminante.
amei.
bjão

Fefa disse...

Eu me lembrei desse texto do Claquette.
Legal pacas essa história. Está certo, é triste, porém intensa, surpreendente no final.
Forte, até assustador, mas muito bom, gostei!
Excelente!

Beijos!

Mariana disse...

õ.O
Medo!
crianças atrapalham mesmo
ô.O
hahahahhaha

marilia disse...

Trotta, vc "devia de escrever mais..."
Bjos.

Mônica Montone disse...

que horroooooooooor!!!

é por isso que escrevo na madrugada, porque há silêncio e não preciso matar ninguém :o)

beijos e valeu a visita, querido

MM.

Sammia disse...

Um dia ainda farei isso aqui na ilha.
:)

marilia disse...

Trotta, pai disse é seu pai???rssss

Alê Lobo disse...

Gostei da história!
Estou acá imaginando poças e poças de sangue...o Grissom vindo checar o que aconteceu junto com a equipe do C.S.I., heuhuehuehuehuehe!


Qual seria a frasezinha de abertura do episódio?

Creuzas!

Trotta disse...

Engraçado... esse texto pareceu ter melhor aceitação quando eu publiquei da primeira vez, no meu ex-blog! Mas é um dos meus favoritos.

Marília (quantas Marílias!), sim, o pai é meu pai mesmo, hehehe! Volte mais vezes, comente sempre! ;)

Beijos e abraços pra vcs!

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