A pianista

Uma bonita jovem, trajando um leve vestido florido, observa sorridente o movimento do lado de fora de sua casa, através da janela da sala. Com as cortinas entreabertas, o sol da bela tarde de domingo invade toda a casa, juntamente com o som das crianças brincando lá fora, o canto dos passarinhos, e o barulho das folhas das árvores no quintal.
A garota senta-se diante de seu piano, e inicia as primeiras notas da Gimnopédia No. 1 (ouça ) de Erik Satie. Ela toca lindamente, e o som da melodia impecável preenche a sala. Pode-se ouvir um tom levemente desafinado, apenas na última nota da canção. A jovem esboça um discreto sorriso e, então, recomeça a tocar, desde o princípio.
Logo ela se distrai e erra novamente, apenas na última nota, no mesmo ponto da música. Mais uma vez a moça sorri, deixando escapar um pequeno riso. Ela fecha os olhos, inspira profundamente, solta o ar devagar, e recomeça a tocar seu piano, a partir do início da canção.
A melodia segue perfeita, até a última nota, quando o erro se repete mais uma vez e ela toca uma única nota desafinada. A garota, então, se levanta e caminha até a janela da sala, de onde pode ver as crianças brincando alegremente, os cães da vizinhança latindo ao longe, e os pássaros cantando vivamente, pousados sobre os galhos das árvores.
Ela sorri, dá um suspiro, e se curva para abrir um antigo baú que fica abaixo da janela. De dentro dele, ela retira uma pesada metralhadora automática.
A garota fecha os olhos, aponta a arma para o lado de fora, e começa a atirar descontroladamente, para todos os lados, gargalhando alto. Aos poucos, os gritos de horror do lado de fora vão perdendo a intensidade, até que as balas finalmente acabam. Ofegante, ainda rindo, ela observa através da janela.
Não se ouve mais nenhum tipo de barulho. Nenhuma criança, nenhum cachorro, nenhum pássaro. A jovem recoloca lentamente a metralhadora no baú, fecha, e senta-se calmamente diante do piano. Inicia a mesma melodia, novamente. Desta vez, ela toca sem errar uma só nota, até o final da canção.
Reprisado do Claquette.

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13 comentários:
Trágico...
Bonito mas trágico. O texto ficou batucando em minha mente e pesando em meu final de tarde.
Triste.
Gosto mais de alegrias para todo mundo e para todas as vidas.
Mas muito bonito pelo supreendente desfecho.
Parabéns, como sempre.
31/08/2007 17:52:00
Uia!
Inusitado!
Quem diria que uma pacata pianista mataria as crianças e os bichinhos em prol do sossego para obter a nota perfeita!
Mas, confesso: tem crianças que me tiram do sério!
31/08/2007 19:03:00
Mas e as folhas, as arvores?
O Vento?!??!
Mas curti pacas!
Pacas mesmo! Bem legal!!!
31/08/2007 20:28:00
Lembro dessa história no Claquette! Ai, que vontade de ter uma metralhadora também... hauhauahuahau
01/09/2007 10:51:00
trotta, acabei de te conhecer.
Belo texto. tragico, e fulminante.
amei.
bjão
01/09/2007 17:19:00
Eu me lembrei desse texto do Claquette.
Legal pacas essa história. Está certo, é triste, porém intensa, surpreendente no final.
Forte, até assustador, mas muito bom, gostei!
Excelente!
Beijos!
01/09/2007 18:19:00
õ.O
Medo!
crianças atrapalham mesmo
ô.O
hahahahhaha
03/09/2007 00:10:00
Trotta, vc "devia de escrever mais..."
Bjos.
03/09/2007 18:54:00
que horroooooooooor!!!
é por isso que escrevo na madrugada, porque há silêncio e não preciso matar ninguém :o)
beijos e valeu a visita, querido
MM.
05/09/2007 15:41:00
Um dia ainda farei isso aqui na ilha.
:)
05/09/2007 16:34:00
Trotta, pai disse é seu pai???rssss
05/09/2007 16:50:00
Gostei da história!
Estou acá imaginando poças e poças de sangue...o Grissom vindo checar o que aconteceu junto com a equipe do C.S.I., heuhuehuehuehuehe!
Qual seria a frasezinha de abertura do episódio?
Creuzas!
06/09/2007 13:11:00
Engraçado... esse texto pareceu ter melhor aceitação quando eu publiquei da primeira vez, no meu ex-blog! Mas é um dos meus favoritos.
Marília (quantas Marílias!), sim, o pai é meu pai mesmo, hehehe! Volte mais vezes, comente sempre! ;)
Beijos e abraços pra vcs!
11/09/2007 12:31:00
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