24 de março de 2008

Feira Livre

Feira Livre em São Paulo
Uma vez por semana, o trânsito tem de ser desviado. A rua é tomada pelas mesmas barracas, de todos os tipos e tamanhos, contendo as melhores frutas, verduras, peixes, grãos e outras especiarias. Às vezes terça, às vezes quinta, às vezes sábado, depende da vizinhança. Famílias se dirigem até a feira para abastecer seus carrinhos com mercadorias, enquanto saboreiam um inigualável pastel de feira, sempre acompanhado do caldo de cana, a famosa garapa. Olha a banana, morango, melão! Moça bonita não paga, mas também não leva! As feiras livres existem desde sempre, e estão espalhadas por todo o país, desde a menor cidade até a maior metrópole. Mas essa antiga tradição... é antiga quanto?

Souq em Marrakesh, MarrocosNão se sabe ao certo quando a primeira feira livre surgiu, mas o registro mais antigo que se tem notícia data de 500 a.C., na cidade de Tiro no Líbano. Até hoje, no Oriente Médio em geral, as feiras são um importante evento comercial. Mercadores aos berros, vendendo tapetes e todo tipo de comidas e especiarias exóticas, nos famosos mercados livres, como o Khan el Khalili do Cairo e os Souqs de Marrakesh. Um dia eu ainda vou andar de camelo e conhecerei um deles de perto, já estou até fazendo aulas de árabe, desde já!

Mais tarde, com o feudalismo, as feiras perderam um pouco a força. Nessa época, as pessoas viviam fechadas em suas terras, onde produziam tudo o que precisavam. Se faltasse alguma coisa, eles conseguiam através de trocas. Apenas após a queda do Império Romano, por volta do século XI, as feiras livres voltaram a fazer parte do cotidiano. Neste período, as Cruzadas trouxeram do Oriente mercadorias raras e exóticas, como o cravo, a canela e a seda. Assim, todo o dinheiro guardado a sete chaves durante o feudalismo voltou à circulação, e as feiras tiveram papel importante no renascimento do comércio.

A tradição como a vemos no Brasil veio na verdade de Portugal, claro. As feiras medievais portuguesas aconteciam em festas estritamente relacionadas à Igreja Católica. A mais antiga de que se tem notícia começou em 1229, e acontecia três vezes ao ano na freguesia de Castelo Mendo, no município de Almeida. Mas este tipo de evento comercial só ganhou força a partir de 1776, com incentivos do governo do Marquês de Pombal, que mais tarde traria o costume para o Brasil.

Hoje são empregadas mais de 6 mil pessoas, em mais de 180 feiras espalhadas apenas por São Paulo. Isso gera uma média de mais de 12 mil toneladas de produtos comercializados, movimentando mais de R$ 15 milhões de reais, todos os meses!

Feira Livre em São PauloÉ uma pena que as feiras livres estejam ameaçadas de extinção, devido à constante urbanização e modernização das cidades. O nosso sempre criativo prefeito Gilberto Kassab, como uma extensão da Lei Cidade Limpa, já teve a idéia de proibir os gritos dos feirantes! Imagina, uma feira silenciosa? Ainda bem que depois ele voltou atrás. Porém, em alguns bairros, já é impraticável fechar uma rua durante um dia inteiro da semana. No meu caso, já fazem anos que não passeio realmente por uma feira, e já nem lembro mais da última vez que comi um bom pastel com caldo de cana.

Meu pai já namorou uma feirante, há muitos anos, e eu tive a chance de conhecer a rotina desses trabalhadores, que acordam quando ainda é noite, pra começar a preparar todo aquele show de frutas e verduras. Mas as lembranças que ficam mesmo são as da feira ali de cima, da foto que inicia esse texto. Era lá que eu ia de vez em quando, perto do sobrado onde eu morava ainda criança, acompanhado da minha mãe ou da minha avó. E aquela bananada que minha mãe me comprava, macia e com casca crocante de açúcar, deliciosa, na consistência perfeita... que eu nunca mais encontrei em nenhum lugar.

12 comentários:

disse...

Gostei desse post!
Adoro as feiras livres de São Paulo... as de Poços nunca gostei muito, porque as pessoas são muito porquinhas e enchem o chão por onde a gente passa de lixo.
Ei, mas está mais que convidado a vir comer um super pastel de feira na rua em frente de casa no domingo!! Com garapa! ;)

Claudia Lyra disse...

Adoro feiras!!! Particularmente, acho que é uma massagem no ego, tal como passar na frente de uma construção, com um monte de peão trabalhando, hauahuahauahua... brincadeiras à parte, gosto demais de ir à feira, ouvir os gritos, provar de tudo nas barracas... hum... delícia!

Sammia disse...

Saudades da bananada? Hahauahuaha, tá certo...Eu tenho saudade dos camelos no Khan el Khalili! Hahahaha, cada um com a sua né?
Sabia que aqui em Curitiba não tem feira livre? Só nos mercadões. Sinto falta :/
O pastel não tem o mesmo gosto, imagina a cana, eca!

bodas disse...

De criança a lembrança mais assim que tenho de feiras é minha avó escolhendo em gaiolinhas frangos caipiras vivos para comprar, matar e fazer no almoço de domingo em PC.
Aqui em Sp que como mais pastel e tomo guarapa na feira...
Em PC era comum tomar guarapa numa tarde quente por exemplo...

Henrique Artur Wint disse...

A cidade onde eu moro é tão pequena que não existe feira livre a céu aberto ou em rua fechada. Antes disso começar a prefeitura construiu algumas cabanas para os feirantes comercializarem seus produtos em algum dia da semana.

pai disse...

Tenho bem presente na memória e no coração a feira da Rua São Benedito. É um marco feliz em minha vida (em nossa vida). Depois, vieram as de Moema e do Pacaembú, já sem poesia porque delas eu me aproximara em demasia, de molde e não sentir tanto a poesia que existia, antes, nos gritos, nos muxoxos, no encanto de atrair, mais do fregueses, amigos.
Tenho muita saudade. Obrigado por trazer tanta coisa de volta.

Fefa disse...

Eu adorava ir à feira com minha vó, era um barato, ela sempre "pexinchava" e eu me divertia. Com meu pai eu sempre ganhava bananas a mais do bananeiro, que era um Português muito do simpático.
Boas lembraças essas!

Trotta disse...

Má: Aqui em São Paulo também era essa porquice, mas quando eu era criança. Vc não imagina o cheiro que ficava na rua perto da minha casa depois que a feira ia embora! XP Ainda bem que agora tá melhor.

Claudia: Sério que os feirantes daí têm esse respeito todo de pedreiro?! Eu acho que por aqui não tem disso não! Os galanteios são mais simpáticos e engraçados!

Sammia: Fica me esnobando, né? Bem feito, foi pra Curitiba e ficou sem feira! Huahuahua! XD

Bodas: Que legal isso das galinhas! Bem coisa de interior! Bom, não devia ser tão legal pras galinhas, hehehe! Acho que vou aceitar o convite da Má e comer um pastel com garapa na feira aí da frente. Faz tempo desde a última vez! :D

Henrique: É uma iniciativa interessante da prefeitura de Venâncio Aires. Mas eu acho que organização demais acaba perdendo um pouco da magia das feiras, né?

Pai: A intenção era trazer essas lembranças das feiras de cada um que lesse. Engraçado que quase todas as histórias são de passado. Será que as feiras estão mesmo em extinção, afinal?

Fefa: Nunca soube pechinchar! Qualquer tentativa disso era ridículo, hahaha! Pior do que isso, só tentando pechinchar com os coreanos dos Centers da vida! XD

Abraços pra vcs!

Carla disse...

Trotta,

eu fui à feira na semana passada. E foi tão bom, passar pelas barracas de frutas, comprar limão de baciada, comer pastel com caldo de cana, ver o preço caindo com o horário...

Eu lembro de ir à feira, aí em São Paulo, com a minha avó, quando era pequena. E puxar o carrinho de feira, e provar de um tudo, e comprar pé-de-moleque no fim.

Aqui, a feira é na quinta a noite. E no domingo de manhã. Mas não tem metade da graça da feira da minha infância...

Beijos. Ótimo post, como sempre.

Patrícia Carvoeiro disse...

Eu adorava ir em feira livre! Amava, é das minhas melhores lembranças. Pastel de feira é inagualável. Caldo de cana idem.

Hoje em dia ainda vou, mas é bem mais raro. E como disse a Claudia, é uma bela massagem no ego! :P

(Aliás, aquela lei do Kassab, se vingasse, seria risível. Imagina, os feirantes todos "gritando baixo"? Patético...)

Kandy disse...

Eu gosto de feiras por causa do colorio e do humor das pessoas. Mas há muitos anos que não vou a uma. Quando eu era pequena, havia uma feira na minha rua, às quintas-feiras, e meu pai tinha de acordar muito cedo para colocar o carro na rua de baixo, do contrário não conseguiria trabalhar.

Agora, uma curiosidade: você sabia que alguns números do francês vieram da feira? rsrsrs O número oitenta, por exemplo, se diz "quatre-vingt" (pronuncia-se cátre van) e quer dizer quatro vezes vinte. Nas feiras livres medievais, onde se vendia de um tudo e era necessário pesar as coisas, não existiam pesos de oitenta, então, usavam-se quatro pesos de vinte. Noventa, em francês, é "quatre-vingt-dix" (= 4 vezes 20 + 10).

As feiras livres também são as responsáveis pelo nome, em português, dos nossos dias da semana. Muito antigamente, as pessoas marcavam os compromissos contando as feiras de um determinado ciclo, pois existiam feiras quase todos os dias. "Te encontro na segunda feira", "na terceira feira", "na quarta feira" e assim por diante. Pode reparar: a língua prtuguesa é a única que tem essa diferenciação no nome dos dias da semana. A maioria das outras os chamam por nomes de planetas.

Saudades de ler seus textos. Aos poucos eu vou me atualizando...

Trotta disse...

Carla: Bom saber que vc lê de vez em quando, hehehe! Uma feira na quinta à noite deve ser bem estranha, principalmente para os vizinhos.

Patrícia: Puxa vida, não sabia mesmo que tinha esse efeito de massagem no ego, haha! XD Bom, po Kassab conseguiu aparecer mais um pouquinho, acho que conseguiu o que ele queria.

Kandy: Oi, há quanto tempo! Que informações preciosas vc trouxe ao meu post! Muito obrigado pela colaboração! :)

Beijos!

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