15 de Maio de 2008

Colinho


Uma voz ecoa nas caixas de som: "Pedir esmolas e o comércio ambulante nos trens são práticas ilegais. Não incentive essas ações". É horário de pico, o metrô está lotado depois de um dia todo de trabalho. Ao parar em uma estação, entra um homem com seus 20 e tantos anos. Comum, bem vestido, bem apessoado, fica de pé no corredor. Ele fala com a naturalidade de quem está conversando com um amigo a seu lado, mas o volume de sua voz pode ser ouvido até o final do vagão.

— Boa tarde, pessoal! Só um minuto da atenção de vocês, por favor.

Alguns estão dormindo. Outros divagando, olhando pela janela, olhando pro teto. Jovens cantarolando, com seus fones de ouvido. Pessoas lendo livros, compenetradas. Algumas conversando animadamente. Todos permanecem como estavam.

— Desculpa interromper sua viagem, pessoal! Meu nome é Paulo, eu não tenho família pra sustentar, não tenho filhos, não tenho esposa. Moro sozinho, em um apartamento legal, espaçoso, perto do meu trabalho. Eu estou empregado, trabalho de 8 a 10 horas por dia em um cubículo, de frente pro computador, de segunda a sexta. De sábado e domingo eu geralmente fico bem cansado, então fico em casa, vendo filme, futebol, Gugu e Faustão. Não tenho amigos.

Pausa. Uma ou duas pessoas olham para ele.

— Então pessoal, estou aqui pedindo um colinho, pode ser qualquer colo, tá pessoal? Pode ser daquela vovó ali no assento reservado, fazendo tricô, ou daquela moça bonita se maquiando ali no fundo do vagão. Pode ser com ou sem cafuné, qualquer 10 ou 15 minutos serve, tá? Aceito só um abraço, ou um sorriso. Ou então alguém que me pergunte como foi meu dia, se está tudo bem comigo, se eu preciso de alguma coisa. Se quiser, não precisa falar nada, basta me ouvir um pouco falar da minha vida, tudo bem pessoal? Qualquer 10 minutinhos serve!

Ninguém se manifesta.

— Não? Ninguém? Agradeço da mesma forma e tenham todos uma boa viagem!

O metrô pára e o homem desce na estação seguinte.

28 comentários:

pai disse...

Poderia ser uma simples ficção bem escrita. Mas não é só isso. É a esmagadora realidade de quem vive só, nesta metrópole insana e desalmada, em busca perene de um gesto que justifique sua existência como um SER SOCIAL, que Arstóteles descreveu há milhares de anos.
Não teve começo e, provavelmente, não terá fim a solidão humana.

Fefa Liguori disse...

É o outro lado da moeda agora, não? E a reação das pessoas parece ser a mesma. Não ligar, não ajudar, não se manifestar perante as necessidades do próximo. Triste!
Mas, precisa ter muita coragem, não?

disse...

Ai, coitado! Nem vc se ofereceu?

Claudia Lyra disse...

Pois é... a gente tem tanto de "Paulo", não tem?

Jaqueline Amorim disse...

É verdade... Muito triste e também muito real... Pessoas se matam todos os dias por porblemas de depressão. Está faltando amor pelo próximo e carinho. Talvez até um colinho...
Homens reclamam das mulheres, mulheres reclamam dos homens e ninguém se acha e ninguém encontra ninguém... Tempo sempre curto e falta dele para ouvir as confissões alheias (de tristeza, de alegria, de lamentação...) É realmente a constatação do real atual.

Jana disse...

Gostei muito deste post.
Me senti um Paulo agora... As vezes se tem pessoas com quem pode se abrir ou até mesmo dividir momentos diversos, mas parece que ninguém tem tempo ou até mesmo interesse... É complicado !!!

Alê Lobita na lanhóse! disse...

Coisas engraçadas!
Até hoje me lembro de um dia, depois de um ensaio com a banda véia que eu cantava, estava eu e o Marião (guitarrista e palhaço) no metrô conversando, e ele estava com um tamborim que ele pegou emprestado sei lá de quem....e blábláblá, patati, patatá de conversa, de repente ele me diz: "peraê, Lobita...eu tenho que fzer isso"...antes que eu perguntasse "isso o quê", ele deu umas pancadas nervosas no tamborim, até todo mundo olhar pra ele. E ele diz: "Gente, desculpe estar atrapalhando a viagem de vocês, não se preocupem, não quero dinheiro pra comer, já almocei hoje uma feijuca, também não preciso comprar remédio, minha família tá cheia de saúde graças a Deus...só queria que os senhores me dessem uma resposta: ALGUM AÍ DE VOCÊS TÁ VIVO? AAAAAHHHHHHH!!! POF,POF,POF (pancadas no tamborim)"
Uma velhinha começou a rir, ele agradeceu a ela, a abraçou, deu um beijinho e bênçãos, me pegou pelo braço e me disse: "vamos ver se tem algum sobrevivente no outro vagão?"....
dia memorável!

Sammia disse...

HAUAHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHAHAHA
FILHO DA MÃE ROUBOU MINHA IDÉIA!!
Não acredito! hahahahaha

Sammia disse...

Nhenhenhenhé, tadinho, tadinho?
O cara é malaco rapá, maluco experto! Afinzão de ganhar um colinho de lorâ! hauhauahauahua
E tú nem pra dar um colinho pra ele né? Orra...geral decepcionada parcero!

Andre disse...

Caraca, que doido... aqui em Fortaleza nunca vi um negócio desse, e olha que passo muito tempo dentro de ônibus. Será que aqui iria funcionar?! Acho que vou fazer uma tentativa e depois te conto Trotta......huhuahuahua.......... Bacana esse fato....
Abraço

Vivien Morgato : disse...

Não tem um lance agora de ser "disk amigo"? o cara liga e outra pessoa vai com ele no shopping, cinema, depois paga a "diária".
Vi isso em outro blog.
O mundo tá acabando.
beijos.

Rodrigo Figueiredo disse...

Sei lá né!
Cada louco com sua mania!

Pablo Pamplona disse...

Putz, muito bom! :)

Trotta disse...

Pai: Parece que essa solidão coletiva só aumenta, né?

Fefa: Sim, teria que ter coragem e cara de pau, hehehe!

Má: Se acontecesse comigo, eu talvez desse risada. Ninguém se oferece pra ajudar um desconhecido assim, vc se ofereceria?

Claudia: Sempre!

Jaqueline: As pessoas competem umas com as outras, fogem umas das outras, e acabam se isolando. Não é a toa que a depressão é o mal do século 21. Obrigado por ter comentado, seja bem-vinda! :)

Jana: Muitas pessoas por aí gostam de falar de si e não gostam de ouvir. É o que mais tem.

Alê: Que legal, a sua história pelo menos foi verídica! ...né? O.o

Sammia: Sério que vc ia escrever algo parecido? Me conta? :D

André: Por favor, faz essa experiência e compartilhe os resultados! Hahaha! XD

Vivien: Cê tá zuando que isso existe! O.o Já tão até capitalizando em cima da tristeza?

Bodas: E de médico e louco todo mundo tem um pouco.

Pablo: Obrigado, hehe! :)

Abraçones!

Éber F Dias disse...

Opa Trotta, tudo bom?

Desculpa não ter retribuido sua visita lá no meu blog. Na verdade eu andei meio ausente do blog por um tempo, daí de eu não ter vindo te responder. Mas hoje eu dei uma sacudida na poeira por lá e estou retornando, eu acho...

Mas aí, esse seu post foi muito legal. Dar uma esmolinha de grana é bem mais fácil né? E é engraçado como a internet tá virando social e a sociedade tá virando individual...

Mas é isso, vou adicionar vc nos meu reader, assim eu me mantenho atualizado ;)

Silvia disse...

E o mais triste é que o que seria muito mais fácil dar: Atenção, é o que menos as pessoas dão...
É bem a realidade mesmo, as pessoas dão o dinheiro e não são capazes de ouvir o outro, só ouvir, quem consegue?
Adorei o texto,
Beijosss

Sharon disse...

Eu teria te dado um abraco. Nao custa e faz tao bem...

Anônimo disse...

Não sei se vocês perceberam, mas ele desabafou como se todos fossem seus conhecidos, ou seja de uma forma ou de outra todos participaram de seu desabafo.Neste dia ele se sentiu menos solitário.

Aucilene disse...

Oi!
Cheguei por aqui meio por acaso, mas amei.
Quanto ao post em específico, gostaria de ter a corgem do suposto "PAulo" pra gritar por um colinho e se caso estivesse em eu novagão em que ele entrasse seria a primeira a lhe oferecer meu colo.

Bjs

Anônimo disse...

Excelente post!!! Parabéns!

Alguém disse algo sobre "ganhar colo de uma lôra"... Meu amigo(a), passe por essa situação 5 minutos de sua vida e vai perceber o que passam milhões de pessoas todos os dias e continuam tentando encontrar um motivo pra continuar.

Valew Trotto!!

Trotta disse...

Éber: Olá! Que bom que gostou, bem vindo ao mundo dos assinantes do feed, hehehe! Um abraço!

Silvia: Olha, vou te falar que boa parte dos meus amigos mesmo não têm me ouvido... que dirá desconhecidos! O.o

Sharon: Oi! Espero que tenha gostado e volte mais vezes, hehehe! Eu não sou o Paulo, mas abraços são sempre bem-vindos. ^_^ Beijos!

Aucilene: Vc vai ter a oportunidade de oferecer o colo pra algum Paulo aí na sua cidade, não é? Hehe

Obrigado a todos que leram e comentaram! Abraços pra vcs!

Kandy disse...

que pena que as pessoas andam assim, indiferentes. O metrô é o lugar onde eu sinto mais de perto isso, a falta de educação, o egoísmo, o "eu tô mais cansado que você", como se fosse possível medir a intensidade do cansaço só pela roupa que a pessoa veste ou pelo olhar que ela tem. Eu me entristeço bastante cada vez que preciso andar de metrô, não por andar a pé, mas por ver em que as pessoas estão se transformando.

Andarilho disse...

Muito bom post. Me lembrou muito o curta "I´ll wait for the next one".

Se não conhece, postei aqui sobre ele.

Caue C M Rego disse...

credo, eu nao soh me ofereceria como ja me ofereci... se tenho dinheiro, dou "esmola", se tenho tempo, dou "tempo". qualquer dia conto umas historinhas sobre isso... mas realmente, nao eh facil ajudar um estranho, e requer um bom preparo, em varios sentidos. no meu caso falta muita estrutura. mas se coloca no lugar: vc chegou a um ponto de desespero que vc esta nao soh pedindo, mas para estranhos. acho que nao ajudar quando pode eh admitir a falta de reflexao sobre os problemas alheios, de cada um e de todos. um pouco de hipocrisia minha, contudo, escrever isso sem ler os outros comentarios antes. :P
faz parte...

Caue C M Rego disse...

ah sim, muito bem escrito, eu nao sabia que ja tava assim a situacao nao! :o
certamente eu ia rir tambem, se nao percebesse que ele falava serio.

FRANCINE ESQUEDA disse...

Olá!! Vi seu recado!!!
Meu, Bom ver coisa nova por aqui!!!
Adoro as coisas que posta! Esse blog me agrada mesmo!
Beijos e boa semana!!

nitz finkelstein disse...

ja tava chorando. haha

Trotta disse...

Kandy: O mundo está cada vez mais egoísta. E as pessoas, claro, mais solitárias.

Andarilho: Excelente dica! Não conhecia esse curta e adorei.

Cauê: Gostaria de ouvir essas suas histórias! Ou então, póste vc mesmo no seu finado blog, ora! Hehe!

Francine: Obrigado! Servir bem para servir sempre, é o que eu sempre digo! ;)

Nitz: Tenho certeza que o personagem adoraria ver que vc se sentiu tocada de alguma forma! Como disse a Alê mais acima, as pessoas parecem que morreram por dentro.

Abraçones!

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